sexta-feira, 20 de novembro de 2009
"Lisztomania" - Phoenix
Até algum tempo atrás eu costumava passar pelo que chamava anedoticamente de "crise indie". Ocorria quando descobria uma banda ou um disco novo de uma banda um ou dois meses depois do lançamento (ou de virar hype). Era uma brincadeira, mas tinha um fundo de verdade. Não que eu desse bola para aquele papo de outros estarem ouvindo antes de mim, mas ficava um pouco contrariado por saber que podia estar escutando tal som há mais tempo. Também curtia descobrir algo legal e dividir com pessoas com quem tenho afinidade musical e que sabem conversar do assunto.
Esse hábito ficou para trás. Recentemente descobri uma banda francesa chamada Phoenix e gostei muito dessa canção do disco mais recente, Wolfgang Amadeus Phoenix. Chegou a bater um princípio de "crise indie", mas logo desencanei. Ouvi empolgadamente o disco todo, outra premissa básica do bom indieófilo, parecia estar gostando, quando me liguei: não é grandes coisas. Legalzinho, mas nada demais. Não vou nem gravar um cdzinho pra ouvir no carro. O Mystery Jets ainda vai continuar tendo o título de "a última coisa boa que descobri". Já se vai mais de um ano.
2009 foi um ano reconhecidamente fraco pela crítica, mas acho que no fundo é a minha relação com a música que está mudando. Já não tenho mais o mesmo saco de antes para procurar coisas novas, baixar discos inteiros e estabelecer conexões. Acho que esgotei minha cota de bandas, talvez tenha chegado ao limite. Na real, aquela coisa de música ser algo muito importante não faz mais muito sentido.
Acho que ficarei com as bandas que já gosto atualmente. Até porque elas não vêm me decepcionando. O disco mais recente dos Arctic Monkeys é um exemplo. Esse sim dá pra ouvir o disco inteiro. Mas outra hora escrevo sobre aquela obra-de-arte. Por enquanto, vou ouvir essa musiquinha do Phoenix. Ninguém é obrigado a ser gênio para fazer uma música boa. Nem toda música boa precisa ser genial.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
"One" - U2
Alex liga o laptop na hora marcada: 1:30 da manhã. Na verdade, um pouco antes, para garantir. Apaga a luz do abajur, deita na cama e espera a transmissão começar. O YouTube iria passar ao vivo um show do U2, sua banda favorita, direto de Los Angeles. Um isopor com algumas latas de cerveja e pacotes de salgadinhos seriam seus companheiros, além dos fones de ouvido que permitiriam ao colega de quarto na república dormir tranqüilamente. O rapaz prefere heavy metal, tem até alguns pôsteres pendurados na sua metade do dormitório. Cada um manda no seu lado.
O show começa com algumas canções mais recentes, do último disco, que não o agrada muito. Ele achou meio paradão e contemplativo. É a senha para que abra a primeira cerveja. O Messenger está aberto, concorrendo com a telinha diminuta do YouTube. Ele aproveita para combinar um barzinho com uma gata do curso de pedagogia. O álcool deixa-o melhor de papo, inclusive virtualmente. Logo a banda começa a tocar alguns clássicos. Alex já está na terceira cerveja quando os primeiros acordes de One atingem diretamente seus ouvidos. Quase que simultaneamente, uma janelinha se abre no computador.
Ana diz:
tá vendo?
Alex diz:
aham
Ana diz:
lembrou de mim?
Alex diz:
claro. tinha outro jeito?
Três anos antes a música era a mesma, mas o palco era maior. O encontro também foi a distância, porém. No estádio do Morumbi, no último show que o U2 fez no Brasil, ele digitava nervosamente o número dela em seu celular. Tinha colocado créditos extras para a tarefa. Ligação interurbana sai caro para estudante universitário, mas o motivo era nobre. Alex queria cumprir a promessa, feita semanas antes, de ligar para a namorada durante a execução de One, já que ela não poderia ir no show. Só que até chegar lá, Ana já era ex-namorada. Brigaram feio. Não importava, promessa era promessa.
“Tá ouvindo”, berrou uma vez. “Tá ouvindo”, berrou duas vezes. “TÁ OUVINDO, PORRA? EU TE LIGUEI!”, berrou o mais forte que pôde.
O som era muito alto, não conseguiu ouvir uma resposta. De qualquer forma, levantou o celular e o direcionou para o palco, enquanto fechava os olhos para segurar as lágrimas. O término era recente, o sofrimento também. Em volta, outros espectadores pensavam se tratar de mais um idiota tirando fotos ou filmando, em vez de aproveitar o momento do show. Alex estava aproveitando de uma forma própria, ouvindo seus ídolos tocarem uma música que foi tema do seu namoro e que, a partir dali, seria seu hino preferido de dor-de-cotovelo.
“Ouviu?”, berrou ao fim da canção. Bem de fundo, escutou um barulho de ocupado. Ela tinha desligado. Frustrado, jogou o celular longe, um ato de revolta extrema para o estudante universitário falido. Nunca soube se atingiu alguém. Nunca soube, também, se ela tinha conseguido ouvir, ou mesmo se tinha desligado o telefone logo de cara. Nunca mais se falaram depois do término. Agora, enquanto a Bono cantava “Ooooneeee” pela última vez
Alex diz:
você chegou a ouvir música aquele dia?
Ana diz:
claro... mas desliguei pq não queria ouvir tua voz
Alex diz:
hum...
O sentimentalismo e a cerveja estavam prestes a cobrar um preço. Alex abriu um outra janela no Messenger.
Alex diz:
oi, esqueci que tinha um compromisso amanhã... te ligo outra hora, pode ser?
Pedagogata diz:
ai, mas não demora muito, né?
Alex diz:
olha, talvez demore...
* * * *
Outro exercício de aula do Scotto. Esse ele ainda não avaliou. E a história é só levemente inspirada em fatos reais.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
"Borboletas" - Victor & Léo
Clique aqui e assista o clipe no YouTube
Vai aí um artigo que publiquei no site Geração Internet, para o qual estou escrevendo há um mês. O site tem bastante conteúdo de internet, tecnologia, cinema e música, dêem uma conferida.
"EU QUERO VICTOR E LÉO NA CAPA DA ROLLING STONE BRASIL"
A versão tupiniquim da revista Rolling Stone acabou de iniciar seu quarto ano de história com a seguinte matéria de capa: “As 100 maiores músicas brasileiras”. Todo mundo gosta de listas, ainda mais quando o assunto é música, e é hábito da matriz americana publicá-las. No entanto, a seleção do tema reflete mais uma vez a linha editorial de pouco risco que a publicação assume, principalmente no tocante às capas com conteúdo produzido no Brasil.
A Rolling Stone brasileira segue o formato adotado pela americana a partir dos anos 90, quando passou a dar mais destaque à cultura pop, embora tenha mantido música, política e reportagens especiais como carros-chefe. Só que era justamente na capa que a mudança de foco ficava mais aparente: ícones adolescentes da TV e do cinema passaram a dividir o espaço com os astros do rock.
Não foi por acaso. Sair na capa da Rolling Stone sempre foi visto como um ritual de aceitação para bandas e artistas, que ansiavam por estar nela como se aquele momento representasse um atestado de qualidade. Há um pouco de mito nisso, porém. O que a RS fazia, e ainda faz, é observar quem está se destacando e pautar seus repórteres para conseguirem um pouco mais desses sujeitos e produzirem matérias interessantes. O Nirvana, por exemplo, só foi capa quase seis meses depois do estouro de Nevermind, apenas quando os editores acharam que tinham um bom material em mãos. Em outras palavras, a revista tenta explicar os fenômenos pop para seus leitores.
Muita gente não entende isso. Era comum, nas primeiras edições nacionais, a sessão de cartas estar infestada de leitores indignados por não verem matérias com o Led Zeppelin, o Pink Floyd ou o Black Sabbath. Em suma, queriam as últimas novidades dos anos 70, mais do mesmo.Os editores cederam e passaram a publicar a sessão “Arquivo RS”, com matérias antigas da matriz, geralmente com dinossauros. O problema maior é que a RS Brasil vem estendendo esse padrão para suas matérias de capa.
Só uma?
As 37 capas da Rolling Stone brasileira até agora assim se dividiram, tematicamente: 21 de música, 8 de TV, 3 de cinema, 2 com modelos, 2 com políticos e 1 com um escritor, sendo 17 gringos e 18 brasucas. Misturando a coisa toda, são apenas 8 capas de música nacional e é aqui que o bicho pega.Estiveram lá Ivete Sangalo, Marisa Monte, Caetano Veloso, Rita Lee, irmãos Cavalera, NX Zero, Gilberto Gil e a mais recente, a listinha com 100 músicas. Qual o único ponto fora da curva de artistas consagrados e com anos de exposição de mídia? Os emos do NX Zero. Apenas uma capa musical “de risco” em 37 edições. É muito pouco.
Aqui não se discute a qualidade ou o valor artístico. O ponto é: ainda há algo de novo que pode ser dito sobre (e por) Caetano, Gil, Rita, etc.? Eu acho muito mais interessante ler a seguinte pérola: “A gente é tipo meio nerd. Às vezes pergunto pra eles: ‘O que a gente vai contar? A Rita Lee contou que cheirou, avacalhou tudo e não sei o quê. E a gente vai contar o quê? Que terminou o GTA várias vezes?’”, vindo de um dos integrantes do NX Zero, falando sobre seu bom-mocismo.
Eu não vou passar a gostar ou odiar uma banda por causa de uma matéria, mas vou passar a entendê-la. Também não vou detestar uma revista porque ela botou na capa uma banda que acho musicalmente desprezível. A Rolling Stone nos deve grandes reportagens sobre artistas diferentes.
Quero ler uma matéria em que um repórter acompanhe uma turnê da dupla Vitor & Léo, que atrai multidões por onde passa. Ou uma que disseque o sistema de vendas do Calypso, que dá aulas de como se aproveitar da pirataria para ganhar em popularidade. Quero ver o fenômeno do tecnobrega, já abordado pela revista, na capa. A vida sexual e musical de Marcelo Camelo e Mallu Magalhães. O funk carioca. E cadê a Pitty? Eu não quero ouvir esse povo, mas quero ler sobre eles. Nada de entrevistinhas, falo de reportagens. Tem muita coisa interessante para explorar em vez de ficar traduzindo matéria gringa que, pela enésima vez, fala dos motivos que levaram os Beatles a se separarem.
Parece-me que a Rolling Stone Brasil sentou-se confortavelmente na reputação, às vezes equivocada, da matriz americana para não arriscar mais nas matérias de capa. É mais uma questão editorial do que de qualidade. A matéria com a reunião dos Cavalera, por exemplo, foi uma das melhores coisas que eu já li na revista. Fugindo da música, o perfil do Faustão também estava excelente. Não é falta de gente qualificada para escrever o problema, portanto. É um fantasma clássico do jornalismo: a pauta.
Links:
Capas da RS Brasil: http://www.rollingstone.com.br/edicoes?rp=12
Capas da RS USA: http://www.rollingstone.com/photos/covers
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
"La vie en rose" - Grace Jones
A estação de trem de Juan-les-Pins, cidadezinha da Riviera Francesa, estava às moscas. Eram 11 e meia da noite e apenas mais um trem passaria por ali. Dois policiais montavam guarda na parte externa. Dentro, apenas bancos de pedra, uma passagem subterrânea e o vento quente de verão acompanhavam o silêncio até surgir um “Vive
João chegou com pressa à estação, com medo de perder a condução de volta para Nice. Estava com dois canadenses, Tom e Jerry, e um americano, Woody, que era quem celebrava a vitória gaulesa. O brasileiro também estava feliz pelo time local - tinha tomado uma garrafa de vinho e abraçado algumas Bridgitte Bardots. Nem imaginava que alguns dias depois o time de Zidane eliminaria o Brasil do Mundial. A perspectiva de ter que dormir na rua não o agradava, porém. Gostava de festa, mas não que as coisas fujam muito ao controle. Foi com isso em mente que olhou para o lado e viu Woody conversando nervosamente com um negro enorme, ladeado por dois sujeitos que não se pareciam em nada com os vilões franceses combatidos por Tintin. Observou que eles não estavam muito interessados no itinerário da ferrovia.
“O que ele está fazendo?”, perguntou aos canadenses.
“Comprando maconha...”, respondeu Tom.
“Ele está louco? E os policiais?”, insistiu.
“Sabe como é... AMERICANO!”, disseram, em uníssono.
“Meu Deus! Vou ser preso... Por que eu não fui com a Heidi Klum?”, lamentou o brasileiro.
A Heidi Klum em questão tinha cruzado o caminho dos rapazes naquela mesma manhã, a caminho de Juan-les-Pins. Não era a supermodelo alemã de fato, mas tinha a mesma nacionalidade e o mesmo rosto perfeito, porém com longos cabelos pretos. Woody foi o primeiro a abordá-la na estação de Cannes, sem sucesso. Ingrid, seu nome verdadeiro, era simpática, mas não se interessou pelo papo do americano. Tom e Jerry descobriram que embarcariam no mesmo trem, mas não avançaram muito na conversa. O brasileiro, a princípio pareceu tímido, mas esperou a condução chegar e fez o básico: ofereceu-se para levar a pesada mochila da tedesca.
João acredita que está na gentileza o segredo para conquistar as mulheres. Naquela manhã, conseguiu a atenção de uma das mulheres mais lindas que já tinha visto e achou que seu ponto estava provado. A conversa engatou e ele começava a pensar seriamente em abandonar seus colegas e descer na mesma cidadezinha que Ingrid. Estava na Europa, tinha mais era que arriscar alguma loucura. Ele se divertia com os olhares admirados dos americanos do norte: o latino estava ganhando com a língua deles. Sim, ele iria descer! Na hora que chegou a estação da alemã, seu lado controlado acabou falando mais alto. Ela perguntou se teria companhia brasileira na praia. Inexplicavelmente, João disse que não, não poderia abandonar os amigos. Ingrid desceu sem se despedir, fazendo-o se arrepender instantaneamente. Restava aguardar que algo de extraordinário acontecesse em Juan-les-Pins.
Woody seguia negociando...
* * * *
Exercício da aula de Grande Reportagem em Texto, com o mestre Scotto. Historinha verídica e, numa auto-análise, uma boa metáfora da minha vida. Pelo menos o Scottão gostou...
terça-feira, 21 de julho de 2009
"Magnificent" - U2
Vou postar uma resenhazinha que publiquei no Cotidiano em março, sobre o disco novo do U2, só pro brógui não ficar muito parado. Ouvi hoje no carro e lembrei que ainda não tinha colocado aqui. Puta disquinho bom e com uma produção do caralho.
* * * *
A relevância cultural de uma banda pode ser medida de muitas formas. A influência sobre seus pares costuma ser a preferida de críticos e entendidos em geral; nesse aspecto, o U2 não tem muito a dizer: Killers e Coldplay podem ser considerados seus seguidores, porém mais em termos estéticos e de intenções de dominação planetária do que propriamente musicais. Numa outra medida, os irlandeses são relevantes como poucos artistas hoje em dia são: o alcance de suas canções. O seu bom novo disco, No Line on the Horizon, deve manter Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen no autodeclarado emprego de maior banda do mundo por mais alguns anos.
O U2 prometia mudanças radicais na sonoridade, coisa que não aconteceu. Há, sim, mais camadas de instrumentos, mas geralmente compondo o fundo do cenário para as letras metafóricas e misteriosas de Bono. As guitarras de The Edge ganharam distorção em algumas faixas, como Breathe, Get on your boots e nos riffs pesados de Stand up comedy, mas continuam com os barulhinhos marcantes que sempre definiram o músico. A cozinha continua econômica, sem grandes firulas, mas absolutamente precisa. U2 clássico, mas um pouco renovado.
Talvez os anunciados novos rumos estejam nas melodias. Bono arrisca, como na tensão dos versos da faixa-título; ela soa desconfortável, ecoando a letra que fala de uma mulher confusa e provocadora. As variações rítmicas e de timbres vocais de I’ll go crazy if I don’t go crazy tonight também chamam a atenção, mostrando que a garganta está envelhecendo bem. Com a capacidade de encarnar de um crooner até um cantor pop, poucos falam de temas pessoais de forma tão variada quanto Bono.
Identificação com o público
O vocalista é um ingrediente essencial da receita do sucesso do U2, mais pelo talento na composição de letras e melodias do que pela sua personalidade midiática, quando resolve salvar o mundo de tempos e tempos. Bono e The Edge têm uma competência rara para escreverem baladas e as chamadas músicas de arena, os tipos de canções que funcionam perfeitamente em concertos ao vivo por provocarem os sentimentos de quem as ouve. Também por isso, elas têm um raro senso de permanência, embora não necessariamente de atualidade. Mas quem precisa estar em dia com a sonoridade que mais agrada a críticos quando milhões de pessoas ainda recorrem a One e With or without you para curtir uma dor de cotovelo?
Seguindo essa linha, as três primeiras faixas de No line on the horizon provavelmente serão as memoráveis. Não é coincidência. Com uma ou outra exceção, em todos os discos do U2 as melhores e mais bem-sucedidas canções estão sempre até, no máximo, a quinta faixa. Formulaicos ou não, os irlandeses estão prestes a entrar na quarta década de inegável sucesso comercial. Com um constante senso de renovação, às vezes drástica, às vezes discreta, a banda consegue se manter relevante numa época de perturbadora urgência musical, com novos gênios revelados e descartados diariamente através da internet. Talvez porque façam música para pessoas mais maduras. Talvez porque sejam muito bons. Relevância do bom tipo, no fim das contas. Ou você consegue cantarolar alguma música do último disco do Killers?
quarta-feira, 15 de julho de 2009
"Back in black" - AC/DC
É no mínimo incoerente que um fã do Nick Hornby possua um blog de música e nunca tenha publicado uma Top 5 List. Nada melhor do que corrigir esse equívoco com uma listinha útil, num estilo passo-a-passo. Chamaremos de Top 5 songs to get rid of an elbow pain.
1 - Forget her, de Jeff Buckley (vídeo)- Um dos estandartes da tristeza musical não poderia faltar num momento de suprema dor amorosa. Dessa vez, porém, ele está aqui para ajudar. Buckley fala tudo o que você precisa nesse momento, num tom lúgebre e respeitoso. Ele te permite demonstrar a dor, admitir que está chorando e que sente muita falta da mulher que partiu seu coração, mas deixa claro no refrão ("Don't fool yourself / She was heartache from the moment that you met her") que a culpa foi dela e de que ela não serve para você. Mesmo que isso não seja inteiramente verdade, é bom tentar acreditar cegamente, para fins de cura. Ainda assim, Forget her é só o começo; Buckley comete o erro de achar que está bem muito cedo, na primeira variável do fim do refrão ("Oh, I think I've forgotten her now"), para depois se entregar nos refrões subseqüentes ("She's somewhere out there now"). Algo como "já te esqueci, vaca", pra depois pensar "merda, ela deve estar se atracando com alguém nesse momento".
2 - Walk away, do Franz Ferdinand (vídeo) - Os roqueiros da geração 2000 mais simpáticos a uma pista de dança cometeram uma bela balada, em seu segundo álbum, com um verso genial temperado singelamente por um violão limpinho: "I love the sound of you walking away". A ironia da frase é amenizada pela melancolia da voz de Alex Kapranos e pelo jogo de imagens fortes da letra. Como na canção anterior, Walk away ainda mexe com a dualidade dos sentimentos, a confusão mental que atinge o sofredor. O Franz tem a receita para os momentos de fraqueza, em que você sente vontade de saber o que a ex-querida tem a dizer: "I cannot turn to see those eyes / As apologies may rise / I must be strong and stay an unbeliever / And love the sound of you walking away". Note a repetição do mantra que dá título a música. É difícil, meu caro, mas você tem que acreditar que ela não quer, não vai e não deve voltar. A banda ainda te dá um tapinha nas costas, finalizando a canção de forma pessimista, reconhecendo seus problemas e que você tem direito a tê-los.
3 - So beautiful, de Pete Murray (vídeo) - Essa é para aquela fase contemplativa, em que você já abandonou quase todo de afeto que tinha pela maldita. A sonoridade ainda é levemente deprê, com violões e orquestrações de teclado de churrascaria. É uma música de menina, pronto. A letra é pop inspirado, porém: "God my fingers burn, / Now when I think of touching your hair / You have changed so much that I don't know / If I can call you and tell you I care". Murray traduziu bem o que você está sentindo, aquele princípio de nojo somado à percepção de que aquela mulher que você amava mudou bastante. Newsflash, babaca, ela não mudou de verdade, provavelmente continua a mesma, é só um mecanismo de auto-defesa seu. Mas tudo bem, é válido. Tudo pela cura. Aliás, diga-se que, aparentemente, a mulher que o Pete Murray curtia realmente passou por uma transformação radical, mas música é um negócio aberto a interpretações. O próprio título da canção é uma pegadinha: parece uma ode à beleza de alguém, quando na verdade está inserida num verso agressivo, "You think you're so beautiful". E segue desencando a desgraçada, chamando-a de jogadora. Boa, agora você entendeu tudo.
4 - You could be mine, do Guns N Roses (vídeo) - Agora você já está definitivamente na vibe "aquela vaca não me merecia" e está pronto para o rock n roll. Chega de músicas com levadas light, você precisa de guitarras distorcidas e raiva no coração. Axl Rose e sua trupe te brindam com toda sorte de grosserias a serem ditas pra quem te deixou na merda. Sim, esse é o momento de perder a classe. O refrão resume tudo: "You could be mine / But your way out of line". Você é o prêmio, garotão, e não ela! O Guns aborda esse ponto, demosntrando que a garota tenta desfazer a cagada em vários trechos ("You can push it for more mileage / But your flaps are wearing thin"), além de abrir fogo contra todos os defeitos possíveis da ex-amada. Ela não precisa ser uma cocainômana como em You could be mine, mas com certeza tem milhares de falhas de caráter sobre as quais você desenvolver seu asco. A canção ainda tem poder reafirmador, logo em sua abertura, que te prepara para o próximo passo, que é voltar à batalha: "I'm a cold heartbreaker, fit to burn / And I'll rip your heart in two". Sim, é hora de se vingar do sexo feminino sem peso na consciência, afinal a culpa é dela. Toda dela. Nunca se esqueça disso. E foda-se se não for inteiramente verdade.
5 - Back in black, do AC/DC (vídeo) - A música que marcou o retorno da banda australiana, depois da morte do vocalista Bon Scott, é um hino do "sacode a poeira e dá a volta por cima". O riff de abertura, sozinho, já é um baita motivador: clássico, seco e cafajeste, ele é o resumo do que você precisa ser nessa última fase de cura da dor de cotovelo. A letra, então, é um primor para esse seu momento, já que pode ser vista com duplo sentido, como praticamente todo o repertório do AC/DC. No caso, eles falam de sobreviver, não morrer nunca ("Forget the hearse 'cause I'll never die / I got nine lives / Cat's eyes / Abusing every one of them and running wild"); deu pra entender ou quer que eu desenhe? Música de macho, porra, nada daquele choromingãozinho do Jeff Buckley! Experimente colocar essa música pra tocar antes de toda balada insana que você for pegar e entenda do que eu estou falando. O refrão complementa o serviço, com Brian Johnson berrando esganiçadamente "I'm back" várias vezes. Berre junto no carro, antes de sair, meu caro. Esse é o espírito. Você está de volta. De luto, mas de volta.
P.S.: Eu sei que já escrevi aqui que uma fossa deve ser curtida e de preferência aprofundada. Mas isso é um blog, não precisa de coerência jornalística, não importa o que ache o Gilmar Mendes. Assim, evite isso, isso e isso, pois essas canções podem botar por água abaixo todo o progresso que você teve com a Top 5 list. E, pelamordedeus, não escute isso. Aí é de volta à estaca zero.
quinta-feira, 23 de abril de 2009
"This charming man" - Morrissey
Este moribundo blog volta de seu exílio com apenas um pequeno drops. Finalmente aconteceu: o Morrissey virou emo. Dêem uma olhada nessa inacreditável versão emocore de This charming man, clássico dos Smiths, apresentada pelo próprio criador num programa da BBC. Pior que ficou legal.