Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

"Back in black" - AC/DC



É no mínimo incoerente que um fã do Nick Hornby possua um blog de música e nunca tenha publicado uma Top 5 List. Nada melhor do que corrigir esse equívoco com uma listinha útil, num estilo passo-a-passo. Chamaremos de Top 5 songs to get rid of an elbow pain.

1 - Forget her, de Jeff Buckley (vídeo)- Um dos estandartes da tristeza musical não poderia faltar num momento de suprema dor amorosa. Dessa vez, porém, ele está aqui para ajudar. Buckley fala tudo o que você precisa nesse momento, num tom lúgebre e respeitoso. Ele te permite demonstrar a dor, admitir que está chorando e que sente muita falta da mulher que partiu seu coração, mas deixa claro no refrão ("Don't fool yourself / She was heartache from the moment that you met her") que a culpa foi dela e de que ela não serve para você. Mesmo que isso não seja inteiramente verdade, é bom tentar acreditar cegamente, para fins de cura. Ainda assim, Forget her é só o começo; Buckley comete o erro de achar que está bem muito cedo, na primeira variável do fim do refrão ("Oh, I think I've forgotten her now"), para depois se entregar nos refrões subseqüentes ("She's somewhere out there now"). Algo como "já te esqueci, vaca", pra depois pensar "merda, ela deve estar se atracando com alguém nesse momento".

2 - Walk away, do Franz Ferdinand (vídeo) - Os roqueiros da geração 2000 mais simpáticos a uma pista de dança cometeram uma bela balada, em seu segundo álbum, com um verso genial temperado singelamente por um violão limpinho: "I love the sound of you walking away". A ironia da frase é amenizada pela melancolia da voz de Alex Kapranos e pelo jogo de imagens fortes da letra. Como na canção anterior, Walk away ainda mexe com a dualidade dos sentimentos, a confusão mental que atinge o sofredor. O Franz tem a receita para os momentos de fraqueza, em que você sente vontade de saber o que a ex-querida tem a dizer: "I cannot turn to see those eyes / As apologies may rise / I must be strong and stay an unbeliever / And love the sound of you walking away". Note a repetição do mantra que dá título a música. É difícil, meu caro, mas você tem que acreditar que ela não quer, não vai e não deve voltar. A banda ainda te dá um tapinha nas costas, finalizando a canção de forma pessimista, reconhecendo seus problemas e que você tem direito a tê-los.

3 - So beautiful, de Pete Murray (vídeo) - Essa é para aquela fase contemplativa, em que você já abandonou quase todo de afeto que tinha pela maldita. A sonoridade ainda é levemente deprê, com violões e orquestrações de teclado de churrascaria. É uma música de menina, pronto. A letra é pop inspirado, porém: "God my fingers burn, / Now when I think of touching your hair / You have changed so much that I don't know / If I can call you and tell you I care". Murray traduziu bem o que você está sentindo, aquele princípio de nojo somado à percepção de que aquela mulher que você amava mudou bastante. Newsflash, babaca, ela não mudou de verdade, provavelmente continua a mesma, é só um mecanismo de auto-defesa seu. Mas tudo bem, é válido. Tudo pela cura. Aliás, diga-se que, aparentemente, a mulher que o Pete Murray curtia realmente passou por uma transformação radical, mas música é um negócio aberto a interpretações. O próprio título da canção é uma pegadinha: parece uma ode à beleza de alguém, quando na verdade está inserida num verso agressivo, "You think you're so beautiful". E segue desencando a desgraçada, chamando-a de jogadora. Boa, agora você entendeu tudo.

4 - You could be mine, do Guns N Roses (vídeo) - Agora você já está definitivamente na vibe "aquela vaca não me merecia" e está pronto para o rock n roll. Chega de músicas com levadas light, você precisa de guitarras distorcidas e raiva no coração. Axl Rose e sua trupe te brindam com toda sorte de grosserias a serem ditas pra quem te deixou na merda. Sim, esse é o momento de perder a classe. O refrão resume tudo: "You could be mine / But your way out of line". Você é o prêmio, garotão, e não ela! O Guns aborda esse ponto, demosntrando que a garota tenta desfazer a cagada em vários trechos ("You can push it for more mileage / But your flaps are wearing thin"), além de abrir fogo contra todos os defeitos possíveis da ex-amada. Ela não precisa ser uma cocainômana como em You could be mine, mas com certeza tem milhares de falhas de caráter sobre as quais você desenvolver seu asco. A canção ainda tem poder reafirmador, logo em sua abertura, que te prepara para o próximo passo, que é voltar à batalha: "I'm a cold heartbreaker, fit to burn / And I'll rip your heart in two". Sim, é hora de se vingar do sexo feminino sem peso na consciência, afinal a culpa é dela. Toda dela. Nunca se esqueça disso. E foda-se se não for inteiramente verdade.

5 - Back in black, do AC/DC (vídeo) - A música que marcou o retorno da banda australiana, depois da morte do vocalista Bon Scott, é um hino do "sacode a poeira e dá a volta por cima". O riff de abertura, sozinho, já é um baita motivador: clássico, seco e cafajeste, ele é o resumo do que você precisa ser nessa última fase de cura da dor de cotovelo. A letra, então, é um primor para esse seu momento, já que pode ser vista com duplo sentido, como praticamente todo o repertório do AC/DC. No caso, eles falam de sobreviver, não morrer nunca ("Forget the hearse 'cause I'll never die / I got nine lives / Cat's eyes / Abusing every one of them and running wild"); deu pra entender ou quer que eu desenhe? Música de macho, porra, nada daquele choromingãozinho do Jeff Buckley! Experimente colocar essa música pra tocar antes de toda balada insana que você for pegar e entenda do que eu estou falando. O refrão complementa o serviço, com Brian Johnson berrando esganiçadamente "I'm back" várias vezes. Berre junto no carro, antes de sair, meu caro. Esse é o espírito. Você está de volta. De luto, mas de volta.

P.S.: Eu sei que já escrevi aqui que uma fossa deve ser curtida e de preferência aprofundada. Mas isso é um blog, não precisa de coerência jornalística, não importa o que ache o Gilmar Mendes. Assim, evite isso, isso e isso, pois essas canções podem botar por água abaixo todo o progresso que você teve com a Top 5 list. E, pelamordedeus, não escute isso. Aí é de volta à estaca zero.

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

"This charming man" - Morrissey



Este moribundo blog volta de seu exílio com apenas um pequeno drops. Finalmente aconteceu: o Morrissey virou emo. Dêem uma olhada nessa inacreditável versão emocore de This charming man, clássico dos Smiths, apresentada pelo próprio criador num programa da BBC. Pior que ficou legal.

Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

"505" - Arctic Monkeys



Já disse em posts anteriores que eu tenho hábitos musicais estranhos às novas gerações. Um deles se deve a ter um som no carro que só toca CDs convencionais, nada de mp3. Além disso, costumo gravar o CD completo para ter no porta-luvas: sinto-me culpado por não pagar pelo disco oficial e compenso o artista apreciando sua obra por inteiro. Se, porém, eu de fato fizesse isto, ouvir o disco todo, não teria demorado tanto tempo para me viciar nessa canção que fecha o segundo disco dos Arctics, "Favourite Worst Nightmare" (2007).

Geralmente faço trajetos curtos de carro, portanto quando pegava o referido disco, acabava me concentrando nos petardos que o abrem, como Brianstorm, D is for Dangerous e Fluorescent Adolescent. 505, assim como outra que hoje é uma das minhas favoritas, Do Me a Favour, raramente ecoava nos falantes do Corollinha. Precisei assistir ao DVD "Live at the Apollo", quase dois anos após o lançamento do disco, para 505 me derrubar. Isso que ela também é uma das últimas do registro ao vivo a que, ainda bem, assisti inteiro.

Há elementos em 505 incomuns ao resto do trabalho dos Arctics: logo de cara, um tecladinho climático mostra que algo de diferente está por vir, o que se confirma com um primeiro verso melancólico de Alex Turner. A letra, aliás, é uma das melhores escritas pelo rapaz; especialista em ironias boêmias e crônicas da noite, ele escreve aqui de forma pungente e ao mesmo tempo singela sobre a saudade e a vontade de estar junto a alguém que se gosta. Chama atenção também que mesmo uma melodia mais trabalhada do que a média dos Arctics não segura o ímpeto verborrágico de Turner, valorizando ainda mais seu talento como letrista.

Em 505, porém, o instrumental não é apenas um complemento: ele define o andamento da história contada pela letra e os sentimentos de quem ouve. O teclado, o baixo pulsado, a guitarra cheia de flanger e bateria meramente metronômica vão envolvendo o ouvinte como pano de fundo dos devaneios de Turner até um interlúdio aos 2:05 de música. Ele arma, mas não prepara, para uma barulheira que vem com os doídos versos "But I crumble completely when you cry/It seems like once again you had to greet me with goodbye", com Turner abandonando os murmúrios anteriores e gritando com a urgência que só uma saudade desesperadora pode provocar.

505 acaba sendo um atestado da evolução dos Arctic Monkeys como banda e de Alex Turner como liricista. No primeiro disco, de 2005, os temas revolviam em torno de bebedeiras e tentativas, em geral fracassadas, de conquistar garotas e demonstravam pouca inventividade em termos de sonoridade. Em resumo, "Whateve People Say I am..." mostrava o enorme potencial dos Arctics, mas já era, em si, um puta disco. No segundo disco eles lidaram muito bem com as expectativas e fizeram outro baita CD, arriscando mais: as letras agora falavam das conseqüências que aquelas noites de deboche e do sucesso tiveram sobre suas vidas pessoais, com um universo ainda mais rico de personagens. Pode-se considerar que, quanto mais experiente, mais fundo você consegue mergulhar nas pessoas. E quanto mais velho, mais um músico se sente seguro para evoluir: 505 resume bem o que é o disco, por tudo isso.

P.S.: leia aqui a crítica no LARANJAS que fiz do show dos Arctics no Tim Festival 2007. E não, não lembro se eles tocaram 505.

Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

"I am the resurrection" - Stone Roses



Conheci os Stone Roses há alguns anos, quando resolvi pesquisar as influências do Oasis. Comprei um disquinho em tese insuspeito: The Complete Stone Roses (1995). Na verdade, a falecida loja Hot Music só tinha este e um disco de remixes. Fui sem medo na coletânea. Cheguei em casa estusiasmado, botei no meu sonzinho portátil e ouvi. E ouvi. E ouvi. Não desceu. Eu fiz força pra gostar, afinal sou fã de carteirinha do Oasis e, se os Roses eram uma influência tão grande, seria natural que o som me apetecesse.

Não foi o caso. Achei tosco, porcamente produzido, embora Fool's Gold tenha feito a minha cabeça. Ainda insisti e comprei o famigerado Second Coming (1994), segundo disco da banda, lançado cinco anos após o primeiro, quando já tinham perdido o momentum, como dizem os britânicos. Achei mais bem acabado, porém uma banda completamente diferente daquela da coletaneazinha. Apenas uma música entrou no rol das prediletas: Love Spreads.

Os Stone Roses acabaram saindo da minha discoteca básica. Volta e meia ouvia as duas canções citadas, como se insistisse que eu estava errado, que eu tinha que gostar da banda. Que fique claro que não é apenas o Oasis, mas um sem-número de entusiastas do rock britânico que coloca os Roses num pedestal. Não era possível, eu devia estar errado.

E estava. Ano passado, pesquisando material para escrever a resenha do disco mais recente do Oasis no Cotidiano (e aqui no blog, mais abaixo), encontrei um bom texto sobre as várias coletâneas lançadas pelos Stones Roses. Ou pelas gravadoras deles. E ali o resenhista dizia: não compre The Complete Stone Roses, as músicas são cortadas, a mixagem é vagabunda e você estará sendo logrado; compre The Very Best of the Stone Roses (2002). Segui o conselho. Quer dizer, não comprei, baixei. Outros tempos.

De fato, devo pedir desculpas a Ian Brown, John Squire, Mani e Remi. Que puta banda eles foram! Canções de pop perfeito (She bangs the drums, Made of stone, Waterfall, What the world is waiting for), longas viagens sonoras (I wanna be adored, I am the resurrection) e o hino máximo da geração Madchester, dessa vez em sua versão completa (Fool's gold). É importante dizer que as duas coletâneas têm algumas canções em comum, mas apenas no nome: em The Very Best, as mixagens e a produção estão de acordo com o que a banda planejava, refletindo a porra-louquice e a genialidade pop dos mancunianos, enquanto The Complete foi feito a revelia da banda, após uma guerra de contratos com gravadoras que acabou podando seu potencial.

No fim das contas os Stones Roses lançaram apenas dois álbuns, que geraram inacreditáveis cinco coletâneas. Após meu périplo de anos, percebo que só era necessário o The Very Best of para que esses caras do norte da Inglaterra entrassem pro rol dos meus favoritos. Sem falar que sem eles não existiria o Britpop e nem esse tal de indie-mainstream atual, já que os Roses foram uma das primeiras bandas que representaram essa dicotomia bizarra. Vale comprar. Ou baixar, vá lá. Outros tempos.

Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

"Better" - Guns N' Roses


Resenha originalmente publicada no site Cotidiano.

O segredo para melhor apreciar Chinese Democracy, o novo CD do Guns N’ Roses, é não ler nada a respeito dele. Quando uma obra tem 15 anos de histórias, controvérsias e expectativas nas costas fica complicado escapar de uma audição cheia de idéias pré-concebidas. Se quiser parar de ler esta resenha por aqui, portanto, fique a vontade, é até melhor.

Continuou? Pois bem: Chinese Democracy é um disco mediano. Não é mediano, porém, porque não tem o Slash, ou porque a voz do Axl Rose mudou, ou porque algo que levou mais de dez anos para ser feito deveria ser bem melhor. É mediano simplesmente porque há algumas faixas boas, umas ruins e outras meia-boca: não há nada excepcional, mas também não há nada há se lamentar.

O problema é que Axl paga um ônus por ser quem é e, principalmente, por insistir em usar a marca Guns N’ Roses: a curiosidade pelo disco mais enrolado da história gerou uma expectativa enorme. Não à toa, o Myspace do grupo bateu o recorde histórico de acessos, com mais de 70 milhões de audições das faixas. É irônico que uma banda vista como ultrapassada, antiga e datada tenha dominado a forma mais usada pelos seus colegas modernos para divulgar música.

Outro Guns N’ Roses

É um equívoco esperar de Chinese Democracy algo parecido com o Guns dos idos dos anos 80. Querer que um sujeito, principalmente um artista, se interesse pelas mesmas coisas aos 25 e aos 45 anos de idade não tem o menor cabimento. Some a isso ao fato óbvio de que a banda não é composta pelos mesmos sujeitos e é possível começar uma análise limpa do negócio.

Porém, pode-se ver o disco novo como uma evolução do que foi mostrado em 1991, com os dois Use Your Illusion: baladas no piano, letras pessoais, orquestrações de sintetizador, sonoridade épica, está tudo lá. O natural seria ter havido uns três ou quatro discos nesse ínterim, mas o crescente domínio que Axl já demonstrava ter sobre a banda à época leva a crer que Chinese Democracy inevitavelmente estava no caminho do Guns N’ Roses.

Ou talvez não. Difícil crer que Slash e Izzy Stradlin gravassem guitarras como as que estão em Chinese Democracy. Cinco guitarristas são creditados, mas o grosso do trabalho foi feito por Buckethead e Robin Finck, músicos mais alinhados com rock industrial ou instrumental e, desculpem-me os xiitas, melhores tecnicamente que os originais. O que o Guns N’ Roses perdeu em feeling e harmonias voltadas para o hard rock ganhou em possibilidades de exploração de timbres, distorções e velocidades. E não perdeu nada em peso, muito pelo contrário. O melhor momento do disco, “Better” lembra bastante o que a geração nu-metal tinha de melhor: ritmo quebrado, distorções sujas e peso, muito peso.

Faixas pesadas se destacam

Com o perdão do trocadilho, seria melhor se as outras faixas fossem parecidas com “Better”. O disco não tem uma unidade: “If the world”, por exemplo, tem um groove de guitarra que não faria feio num disco do Justin Timberlake. As baladonas, já presentes na era Use Your Illusion, dominam Chinese Democracy, mas sem o brilho de outrora. Mesmo músicas que ensaiam enveredar pelo peso acabam tendo intervenções de pianos, orquestras ou mesmo momentos líricos do vocalista. Nem por isso são ruins: o rock n roll não precisa ser maniqueísta.

As melhores canções do CD são as que carregam no botão de ganho do amplificador. “Chinese Democracy”, “Shackler’s Revenge” e a já citada “Better” fazem as honras de abrir o disco numa seqüência veloz e pesada. Muralhas de guitarras, com pequenos solos incluídos em vários trechos e vocalizações clássicas de Axl qualificam as faixas, com um pouco de boa vontade, para o rol do que de melhor o Guns já fez.

Um novo começo

O ideal, contudo, é não misturar as coisas. Axl Rose decidiu fazê-lo, mas nós não precisamos: Chinese Democracy deve ser visto como o primeiro trabalho de uma banda nova. Uma banda nova com enorme potencial, é bom que se diga. Ter quem tem como vocalista, frontman e compositor é um diferencial competitivo bastante relevante numa geração do rock carente de sujeitos ao mesmo tempo iconoclastas e talentosos. Resta torcer para que ele seja um pouquinho mais produtivo.

Segunda-feira, 24 de Novembro de 2008

"Janta" - Marcelo Camelo & Mallu Magalhães



Vi hoje a foto no UOL em que Marcelo Camelo, 30, e Mallu Magalhães, 16, assumem que estão namorando. Ela me fez lembrar uma expressão em inglês que eu gosto bastante, mas não sei daonde peguei: this is so wrong on so many levels. A cara de idiota dela, a cara (excessivamente barbada) dele de babão, os violões... Sério, tá tudo errado e perturbador.

Não é questão de puritanismo: se eu tivesse restrições a condutas sexuais anormais não cursaria jornalismo na UFSC. Não é a enorme diferença de idade que me incomoda, mas sim o contexto. Mallu tem 16 anos, é perfeitamente compreensível que se apaixone por um compositor cult e que sofre por amor como Marcelo Camelo. Às vezes esquecemos que meninas, por mais maduras e/ou cult que pareçam ser, no fundo são só meninas. Falando português claro: é normal que ela queira dar pra ele.

Como é normal o Camelo querer comer uma menina de 16 anos. Às vezes esquecemos que homens, por mais insuportavelmente chatos e/ou intelectuais que pareçam ser, no fundo são só homens. Só que o negócio deveria parar na sacanagem; em vez disso, o Humbert Humbert do indie nacional resolve assumir o namoro, com cara de quem está apaixonado. Ou seja, ele admira a Mallulita. Ou seja, ele, compositor de qualidade reconhecida, admira musicalmente num nível pessoal a menina que escreveu Tchubaruba. So wrong...

Marcelo Camelo acaba entrando pela porta dos fundos numa longa linhagem de roqueiros que se aproveitam do violão no backstage para pegar menininhas. Nenhum, no entanto, namorava uma delas publicamente. Tudo bem, eles parecem ter bastante a ver, mas podiam ter ficado tchubarubando sem fazer alarde. Se você não está convencido o bastante do quão bizarro é isso tudo, imagina aquela barba toda... Não, não, parei.

Terça-feira, 14 de Outubro de 2008

"The shock of the lightning" - Oasis



O Oasis tem um sério problema: era bom demais no começo da carreira, mais especificamente nos dois primeiros álbuns (Definitely Maybe - 1994 e What's the story morning glory - 1995). O sentimento que fica a cada novo lançamento é o de que eles poderiam fazer coisa bem melhor, pois, afinal das contas, já fizeram coisa bem melhor. Os quatro trabalhos subseqüentes tinham faixas que remetiam aos épicos sons dos primórdios, mas nada tão bom quanto Live forever ou Champagne supernova. O quinto, o recém-lançado Dig out yout soul, não foge à regra.

O primeiro single, The shock of the lightning, é um rockão acelerado que mostra que Noel Gallagher, guitarrista e principal compositor da banda, não perdeu a mão. A canção tem a pegada da banda, com o fraseado de guitarra típico, vocal desleixado e até a obrigatória referência aos Beatles, mas, infelizmente, não é melhor que Supersonic. Na boa, não é melhor nem que Hindu times, do fraquinho Heathen Chemistry (2002). Mas é uma baita música. Deu pra entender? Não? Passemos ao segundo single, então.

I'm outta time é uma balada inspiradíssima, escrita por Liam Gallagher, vocalista da banda. Se Liam já escancarou há tempos sua pretensão de ser John Lennon, aqui a coisa chega a níveis assustadores, vocalmente e estilisticamente falando. Os backing vocals parecem ser feitos pelo homem, que aparece, de fato, num sample de entrevista ao fim da faixa, encerrada de forma meio etérea, como se justificasse a voz do além. A letra é bonitinha, mas ordinária, como as que o ex-beatle compunha para a Yoko. Resumindo, uma bela canção de amor, mas, infelizmente, não é melhor que Wonderwall ou que a lindíssima Songbird, também escrita por Liam e também do fraquinho Heathen Chemistry. Agora deu para entender, não?

O Oasis vai ser eternamente comparado a si próprio. É impossível expulsar da mente os clássicos dos primeiros tempos ao analisar um novo álbum da banda. Além de tudo, eles mantém uma sonoridade fundamentalmente parecida, apenas um pouco mais lisérgica e elaborada, o que dificulta ainda mais o afastamento necessário para uma audição isenta. Dig out your soul, para completar, realmente não é grandes coisas, não tem uma canção verdadeiramente memorável. Neste último aspecto, perde até para o disco anterior Don't believe the truth (2005), que tinha a viajante Turn up the sun e as pub-rocks Lyla e The importance of being idle, que tiveram inclusive boa rotação radiofônica.

Nada disso, porém, deve importar para os fãs. A legião de seguidores do Oasis é fiel e já comprou centenas de milhares de cópias do disco em menos de uma semana de lançamento. Um ponto positivo do disco é que suas canções parecem que devem funcionar ao vivo, principalmente as faixas de abertura Bag it up e The turning e os já citados singles, onde os rapazes de Manchester brilham. O sucesso de suas performances se deve em parte à boa receptividade que seus fãs demonstram em relação a canções novas, mas de sobremaneira à forma apaixonada que os fãs cantam seus grandes clássicos. Aqueles, dos dois primeiros discos. Entendeu?