Alex liga o laptop na hora marcada: 1:30 da manhã. Na verdade, um pouco antes, para garantir. Apaga a luz do abajur, deita na cama e espera a transmissão começar. O YouTube iria passar ao vivo um show do U2, sua banda favorita, direto de Los Angeles. Um isopor com algumas latas de cerveja e pacotes de salgadinhos seriam seus companheiros, além dos fones de ouvido que permitiriam ao colega de quarto na república dormir tranqüilamente. O rapaz prefere heavy metal, tem até alguns pôsteres pendurados na sua metade do dormitório. Cada um manda no seu lado.
O show começa com algumas canções mais recentes, do último disco, que não o agrada muito. Ele achou meio paradão e contemplativo. É a senha para que abra a primeira cerveja. O Messenger está aberto, concorrendo com a telinha diminuta do YouTube. Ele aproveita para combinar um barzinho com uma gata do curso de pedagogia. O álcool deixa-o melhor de papo, inclusive virtualmente. Logo a banda começa a tocar alguns clássicos. Alex já está na terceira cerveja quando os primeiros acordes de One atingem diretamente seus ouvidos. Quase que simultaneamente, uma janelinha se abre no computador.
Ana diz:
tá vendo?
Alex diz:
aham
Ana diz:
lembrou de mim?
Alex diz:
claro. tinha outro jeito?
Três anos antes a música era a mesma, mas o palco era maior. O encontro também foi a distância, porém. No estádio do Morumbi, no último show que o U2 fez no Brasil, ele digitava nervosamente o número dela em seu celular. Tinha colocado créditos extras para a tarefa. Ligação interurbana sai caro para estudante universitário, mas o motivo era nobre. Alex queria cumprir a promessa, feita semanas antes, de ligar para a namorada durante a execução de One, já que ela não poderia ir no show. Só que até chegar lá, Ana já era ex-namorada. Brigaram feio. Não importava, promessa era promessa.
“Tá ouvindo”, berrou uma vez. “Tá ouvindo”, berrou duas vezes. “TÁ OUVINDO, PORRA? EU TE LIGUEI!”, berrou o mais forte que pôde.
O som era muito alto, não conseguiu ouvir uma resposta. De qualquer forma, levantou o celular e o direcionou para o palco, enquanto fechava os olhos para segurar as lágrimas. O término era recente, o sofrimento também. Em volta, outros espectadores pensavam se tratar de mais um idiota tirando fotos ou filmando, em vez de aproveitar o momento do show. Alex estava aproveitando de uma forma própria, ouvindo seus ídolos tocarem uma música que foi tema do seu namoro e que, a partir dali, seria seu hino preferido de dor-de-cotovelo.
“Ouviu?”, berrou ao fim da canção. Bem de fundo, escutou um barulho de ocupado. Ela tinha desligado. Frustrado, jogou o celular longe, um ato de revolta extrema para o estudante universitário falido. Nunca soube se atingiu alguém. Nunca soube, também, se ela tinha conseguido ouvir, ou mesmo se tinha desligado o telefone logo de cara. Nunca mais se falaram depois do término. Agora, enquanto a Bono cantava “Ooooneeee” pela última vez
Alex diz:
você chegou a ouvir música aquele dia?
Ana diz:
claro... mas desliguei pq não queria ouvir tua voz
Alex diz:
hum...
O sentimentalismo e a cerveja estavam prestes a cobrar um preço. Alex abriu um outra janela no Messenger.
Alex diz:
oi, esqueci que tinha um compromisso amanhã... te ligo outra hora, pode ser?
Pedagogata diz:
ai, mas não demora muito, né?
Alex diz:
olha, talvez demore...
* * * *
Outro exercício de aula do Scotto. Esse ele ainda não avaliou. E a história é só levemente inspirada em fatos reais.
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